terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

A TRAGÉDIA NÃO SOTERROU A SAUDADE

É PRECISO RECONSTRUIR A VIDA

Naquele tempo tudo era mais tranquilo aqui no Morro. A gente tinha a nossa casa. A família – como papai dizia – era a coisa mais importante para o homem. Minha mãe trabalhava como merendeira em uma escola municipal. Todos os dias me dava um beijo e dizia que eu iria ser um grande homem algum dia, mas que para isso teria que obedecer aos meus pais. Eu me lembro como se fosse hoje, eu e meus irmãos brincávamos todos os dias na parte alta do Morro. Enquanto a escada nos levava cada vez mais alto, enquanto a água da chuva descia pela galerias, nós, corríamos contando cada degrau quando desciamos serpentiando nas curvas dos estreitos caminhos que nos levavam devolta pra casa. Depois da nossa casa não havia mais nada, somente o mato. Eu me sentia como se não estivesse na cidade, era mágico, era uma sensação misturada com o prazer do arroma da mata com a fumaça do carro que quase não subia até a Rua Lincoln Correia da Silva, a via principal do Morro. Foi nela que corri atrás dos carros, foi nela que soltei a minha primeira pipa, foi nela também que mamãe me deu a primeira surra por não querer sair da chuva. Ainda no recôncavo da minha memória trago os resquícios das primeiras imagens de quando ganhei o meu velotrol. A minha alegria era imensurável, era como se eu já fosse um homem de verdade e pudesse dirigir até a padaria para comprar pão para minha mãe, a dona Maria. Meu pai, seu Tonico, como era conhecido, levantava cedo para trabalhar na empresa Brasfels. Eu acordava às 4h só para ver meu pai sair às 5h da manhã. Meu irmão mais velho Toninho, sempre me chamava a atenção, dizia que se eu não dormisse poderia ficar cego, eu sempre acreditava naquelas história e ia dormir pedindo a Deus para não permitir que eu fosse deficiente visual. Minha irmã era minha melhor amiga, encobria sempre as minha peripérsias, e olha que não eram poucas. Hoje, tenho saudades daquela época. Parece que foi ontem. Quando não havia tragédia. Naquela época ninguém falava em estudo, análise técnico da terra, a terra era apenas onde a gente pisava pra brincar, nunca ninguém falou pra gente que aqui poderia desmoronar. Eu não achava que o encanto do meu castelo, onde dormia, brincava, corria, comia, chorava, pudesse desabar. Naquela época meus amigos respiravam o mesmo ar, brincavam comigo no quintal da minha casa com coisas bobas de criança, ninguém nunca tinha falado sequer que a gente estava em risco, que nosso barraco poderia cair com a lama que veio do alto. Lá pra mim Deus é que mandava. Descobri do jeito mais difícil o modo de se isolar. Nunca tinha ouvido falar em muro de contenção, saneamento, coisas que o moço da prefeitura nos disse no dia primeiro. Eu só ouvia a espressão a casa caiu pela televisão, quando era ação da polícia ou enchente em São Paulo, nunca pensei que a nossa casa realmente pudesse cair como se fosse de papel. Na manhã do dia primeiro não vi meus amigos que me acordavam sempre para brincar, meu pai chegou esbaforido, minha mãe chorava sem parar. Na hora não entendia bem o que havia acontecido, o moço da prefeitura dizia pra gente sair que irira desabar. Pela primeira vez vi meu pai chorar de soluçar. A montanha que tanto idolatrava veio abaixo. Foi aí que percebi que a solidariedade das pessoas foi mais forte e me emociono até pra contar. Naquele dia não havia cor, estatus, ideologias, partido, todos incansávelmente lutavam por uma esperança soterrada embaixo dos escombros das casas derrubadas pela tragédia do dia 1º de janeiro de 2010. Todos queriam encontrar alguém vivo, e o tempo era sem dúvidas nosso maior inimigo. A dor pode até ficar, mas as lembraças de um tempo bom na Carioca vão ser eternas nas vidas daqueles que construiram seus sonhos naquele Morro. Porque agora, já começamos a recontruir um tempo que deixou saudades em nossas vidas, a imagem ruim a gente apaga, a dor a gente diminui, porque agora temos que reconstruir nossa linda Carioca.

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