quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

PARATY E O REFÚGIO DOS RICOS EM MAMANGUÁ









Uma matéria na Revista VEJA RIO sobre o SACO DO MAMANGUÁ em PARATY e seus "quase" dono desse único FIORDE TROPICAL no país. Todas as edificações irregulares que constam nesta localidade foram encaminhadas por mim antes na SAPÊ a justiça e aos órgãos públicos de fiscalização ambiental FEDERAL, ESTADUAL E MUNICIPAL. A única coisa certa até o presente momento é que nada aconteceu com essas irregularidades! É isto.

Ivan Marcelo Neves
Secretário Executivo do ISABI - Instituto Socioambiental da Baía da Ilha Grande
Refúgio dos milionários
Único fiorde brasileiro, o Saco do Mamanguá, nos arredores de Paraty, tornou-se um enclave de empresários e celebridades que buscam praias paradisíacas em um lugar isolado. Quem costuma viajar pela ponte aérea Rio-São Paulo provavelmente já reparou em um trecho da costa entre a Baía de Ilha Grande, no estado do Rio, e as praias de Ubatuba, no Litoral Norte paulista, marcado por um recorte abrupto, com uma profunda reentrância. Trata-se do Saco do Mamanguá, uma formação geológica atípica, em que um braço de mar adentra o continente em meio a um conjunto de montanhas. Conhecido tecnicamente como fiorde tropical, ele é bastante semelhante aos seus pares escandinavos – tirando, é claro, o fato de estar a milhares de quilômetros de uma geleira e ser cercado por uma floresta luxuriante. Ao todo, o golfo estreito e de águas cristalinas, com cerca de 10 me-tros de profundidade, tem 1,5 quilômetro de largura, 8 de extensão, 33 praias, duas ilhas e doze rios.

Outra característica, claramente perceptível para quem olha de cima, é o isolamento. A estrada mais próxima – no caso, a Rodovia Rio-Santos – faz uma curva e se distancia da área, tornando-a inacessível aos automóveis. A esse pequeno naco de paraí-so, localizado a 260 quilômetros do Rio e próximo à aprazível Paraty, só se chega de barco, a pé (pelo meio da mata) ou de helicóptero. Tantos predicados naturais, aliados à aura de reclusão e privacidade, têm tornado o local um reduto perfeito para milionários e celebridades. Na extensa e diversa lista de estelares que passam férias ou frequentam o lugar estão as apresentadoras Fernanda Lima e Fernanda Young, a atriz Cláudia Abreu, o publicitário Nizan Guanaes, o cineasta Fernando Meirelles, o empresário Alexandre Acciolly, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e o onipresente Eike Batista.

Se vista de cima a região chama atenção, no nível do mar esse efeito é potencializado. A bordo de um barco, antes mesmo de cruzar o estreito que serve de entrada ao Mamanguá, é possível vislumbrar o que está por vir, com as cadeias de montanhas elevando-se a cada lado da passagem, em uma cena de rara beleza no litoral brasileiro. Uma vez dentro do pequeno golfo, entende-se por que o local é chamado de "praia dos ricos". Abrigados do vento oceânico, lanchas, veleiros e iates se espalham pelas águas límpidas. Nas margens, debruçam-se sobre atracadouros trinta luxuosas mansões, com uma profusão de bangalôs, piscinas, praias privativas e funcionários vestidos de branco circulando para lá e para cá. Uma das mais suntuosas pertence ao empresário paulista Alexandre "Xandy" Negrão, dono do laboratório Medley, vendido recentemente a um grupo francês por 1,5 bilhão de reais. Apelidada por alguns vizinhos de "a toca do 007", referência às belas propriedades que aparecem nos filmes de James Bond, é a mais cara da região, com um valor estimado em 15 milhões de reais. Trata-se de um complexo com sede, sete bangalôs, sauna, vestiários, salão de jogos, ponte, heliponto, píer e uma praia exclusiva. Do chão de uma das salas, feito de vidro, dá para ver um rio que atravessa o terreno. As obras foram iniciadas em 2001, mas a conclusão só aconteceu três anos depois. Todo o material, móveis e peças de decoração foram trazidos de barco. Além da casa de Negrão, outra construção imponente é a do empresário Fernando Altério, da promotora de eventos Time4Fun, que trouxe ao Brasil shows como o de Madonna, Aerosmith, Eric Clapton e Rod Stewart. Com uma enorme piscina logo à beira da água, a mansão é sede das festas mais animadas da região, sempre capitaneadas pela mulher de Altério, a estilista Paula Raia. "É um lugar para me desligar do mundo", diz Paula, que passou o último réveillon por lá.

As águas azuis e transparentes, onde podem ser vistas tartarugas marinhas, golfinhos e até baleias, atraem todo tipo de endinheirado. Um grupo numeroso e crescente é o dos que chegam em vistosas embarcações e lá lançam âncoras para passar agradáveis temporadas. É o caso do empresário Eugênio Agostini. Neste verão, ele tirou da marina seu megaiate Trawler, de 93 pés (28 metros), para passear pelo Mamanguá. Batizado de Gattina, o barco é quase uma mansão. Com três andares, cinco suítes, piscina, sala de ginástica e avaliado em 4 milhões de reais, possui autonomia suficiente para cruzar o Atlântico. Agostini, porém, gosta mesmo é do fiorde, onde passa o dia entre mergulhos na água transparente e goles de champanhe ao lado de sua filha, a estudante de moda Marina, de 28 anos, e de uma amiga dela, a administradora Alessandra Bayeux, 24. "Aqui nem é preciso usar máscara e snorkel para ver os cardumes nadando", diz Marina, moradora da Barra da Tijuca. "Tem coisa melhor na vida?", pergunta. O engenheiro Mauro Dottori e a mulher, Regina, fazem o mesmo no barco da família, um Princess, de 42 pés (13 metros), avaliado em 450 000 reais. Com sala de estar, quarto e cozinha equipada, o barco de Dottori acomoda com conforto, além dele, a esposa, dois filhos e o cachorro da família. "É um lugar único, onde é possível praticar esportes náuticos e, quando dá vontade, encostar o barco e explorar o mangue e as trilhas", diz o engenheiro, adepto do wakeboard.

Habitada desde os tempos do descobrimento pelos índios guaianases, a região onde fica o Mamanguá (que em tupi significa "dentro do cercado") abrigou engenhos de açúcar e fazendas nos tempos da colônia e do império. Durante o século XX, toda a área mergulhou em uma espécie de decadência letárgica, da qual saiu apenas com a abertura da Rodovia Rio-Santos, em 1975. Foi então que os primeiros forasteiros começaram a chegar. Frequentadores da cidade de Paraty, Augusta e Paschoal Fortunato, donos da agência de viagens Tia Augusta, encantaram-se com o local no fim dos anos 70. Visionários, compraram lotes de caiçaras bem antes de a especulação imobiliária elevar às alturas o preço das propriedades. "Quando estivemos aqui pela primeira vez, a passeio, tivemos certeza de que este seria o nosso refúgio especial", conta Paschoal, que já recebeu propostas quase irrecusáveis para vender o imóvel mas não tem a menor intenção de se desfazer dele tão cedo. A propriedade tem uma praia privativa de 180 metros de extensão, casa principal com quatro quartos e um anexo para hóspedes, cercados por coqueiros. Da varanda, com arquitetura que mescla o estilo colonial com o caiçara-chique, Fortunato tem uma vista privilegiada para os paredões rochosos. Um pequeno éden que, segundo negociantes de casas na região, vale pelo menos 5 milhões de reais.

Como acontece em alguns trechos da chamada Costa Verde, o Saco do Mamanguá está sob proteção legal. Parte da Reserva Ecológica de Juatinga e da Área de Proteção Ambiental (APA) Cairuçu, a região não pode ter novas edificações. Na prática, isso significa que uma casa só poderá ser erguida se substituir outra já existente, respeitando o mesmo tamanho da anterior. Esse é o motivo de uma notória queda de braço travada entre o empresário Alexandre Negrão e os órgãos de preservação ambiental. Durante a construção de sua propriedade, a fiscalização acusou-o de burlar a lei e ocupar uma área maior que a permitida. A obra foi várias vezes embargada, e o empresário chegou a acumular 2 milhões de reais em multas. Há dois anos, Negrão foi intimado a demolir parte do imóvel, mas acionou seus advogados e conseguiu postergar a decisão – bem como o pagamento das multas. O processo, no entanto, continua correndo na Justiça. E ele não está sozinho: mais da metade das casas de veraneio enfrenta algum tipo de pendenga jurídica, seja em decorrência de problemas ambientais ou fundiários. "Essa região é única, e não apenas pela sua configuração geológica", diz o biólogo Paulo Nogara, que faz pesquisa na área há quinze anos. "É um berçário de espécies e tem um ecossistema extremamente delicado. Quanto menos interferência humana, melhor."

Além de patrulharem as construções, os ecologistas esbravejam contra o tráfego indiscriminado de iates e jet skis. Do ponto de vista ambiental, o argumento é que o trânsito contínuo de veículos náuticos prejudica as espécies mais delicadas, como alguns tipos de plâncton, ao revolver a água em demasia. Mas há ainda outro aspecto: a segurança. O abuso de velocidade é comum – e, em pelo menos um caso, teve consequências gravíssimas. No réveillon do ano passado, a imprudência de um piloto de lancha provocou a morte de um hóspede de uma das mansões, o empresário alemão Christian Wölf-fer, atropelado enquanto nadava a pouco mais de 100 metros da praia. Socorrido pelo ator Rodrigo Hilbert e sua mulher, a apresentadora Fernanda Lima, Wölffer morreu logo ao dar entrada na Santa Casa de Paraty. Mesmo assim, a imprudência continua a correr solta. Durante a visita da equipe de reportagem de VEJA RIO ao local, um desavisado a bordo de uma embarcação de 65 pés (20 metros) brincava de fazer manobras arriscadas em círculos, a 20 nós de velocidade (o equivalente a 37 quilômetros por hora), enquanto era fotografado por um amigo, de uma praia. Coube a um pescador a tarefa de advertir o afoito de que o limite máximo permitido na área é de 5 nós (10 quilômetros por hora).

Ao contrário do que acontece em enclaves de milionários nos arredores, como o fechadíssimo condomínio da Praia de Laranjeiras, quase na fronteira com São Paulo, o Mamanguá está aberto a visitantes. Para os que não têm amigos poderosos com casas por lá ou barcos com suítes, há uma confortável pousada, a Eco Lodge, com praia privativa e diária de salgados 685 reais. Há também à disposição dos turistas – menos exigentes, diga-se de passagem – alguns campings, instalados nos quintais das cabanas dos caiçaras, como as da Praia do Cruzeiro, e cerca de dez imóveis de veraneio, que costumam ser alugados por dia ou temporada. Três deles estão concentrados no Refúgio do Mamanguá, propriedade do biólogo Paulo Nogara, que preservou o estilo simples e rústico das construções. É uma boa oportunidade para conhecer a rotina das 120 famílias que ainda vivem da pesca e do artesanato na área. Por ali, a casa de aluguel mais em conta, para duas pessoas, fica entre 120 e 150 reais por dia. A maioria não tem iluminação elétrica, mas conta com aquecedor a gás. É só entrar no clima e encarar o inconveniente como oportunidade para românticos jantares à luz de velas. Na hora do almoço, além de todos os atrativos naturais, a diversão é ver os frequentadores estelares comprando peixes frescos em pequenos mercados improvisados pelos locais. Algumas famílias de caiçaras, inclusive, abriram os próprios restaurantes, os únicos da área, que são de uma simplicidade espartana, mas de comida honesta. Toques de autenticidade e exotismo pelos quais os ricos, mesmo os muito ricos, também são fascinados.

4 comentários:

  1. E todo mundo sabe que neste aprazível recanto dos milionários tem todo tipo de construção irregular ferindo frontalmente inúmeras leis ambientais. Mansões contruídas sobre as areias das praias, sobre costões rochosos, sobre mangues aterrados mas a justiça e os órgãos de fiscalização não se atrevem a bulir com esta gente poderosa. Se fosse o barracão de um pobre pescador rápidamente iria para o chão e ainda prenderiam o pobre coitado. Em Angra demoliram impiedosamente as casas nos morros incluisve com móveis dentro, sem nenhum estudo acurado e sem ordem judicial. Uma verdadeira vergonha.

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  2. Não é exatamente assim. Os órgãos ambientais e policiais trabalham contra um exército de caríssimos advogados, que conseguem toda sorte de protelações via recursos judiciais e administrativos disponíveis na legislação, além de manobras escusas e impublicáveis, porém impossíveis de serem comprovadas. É uma luta muito desigual. Certo é que existem várias investigações em curso para punir os infratores, porém tal punição depende, sobretudo, da Justiça Federal já que a área está inserida em uma unidade de conservação federal.
    É isso.

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  3. Pois é meu chapa concordo contigo. A justiça burguesa neste país só existe para arrasar com a vida dos pobres. Quando se trata de demolir as casas dos morros de Angra que alguns julgavam estar em condições de riscos, meteram a escavadeira até com os móveis lá dentro, sem mandato judicial ou qualquer outro instrumento legal além da ordem verbal do prefeito que se locupleta com esta triste tragédia aumentando assustadoramente o seu patrimonio pessoal. Já para desencastelar um destes magnatas que contruiu a sua mansão em total desrespeito às leis, ficam nesta chicana jurídica que envergonha a nossa nação. Pobre poder judiciário.

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  4. No final dos anos 70 tive a oportunidade de passar dois carnavais neste inesquecível lugar. Tenho um amigo que possue ma residencia antiga, herança de antepassados, bem no final do Saco do Mamanguá. Na época íamos sempre, à pé, cerca de duas horas, até as Praias do Sono e de Laranjeiras, onde só existiam casas de remanescentes Caiçaras. Ainda bem que a Praia do Sono continua intacta. Meus filhos eram bem pequeninos mas ora andavam, ora iam nas costas mesmo. Em uma das vezes enfrentamos uma tempestade na traineira, de Paraty até lá, mas compensou pois ao chegarmos no Saco, o céu estrelado e uma linda lua brotava do mar. O Brasil tem lugares fantásticos!

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